domingo, 14 de novembro de 2010

Futuro



Eis o meu primeiro soneto:

O tempo também pertence a quem ama.
O tempo é pouco, mas parece tanto,
Que quando a alma apenas reclama,
Encontro em alguém todo o meu canto.

Reservo a ela todo o meu afeto,
Penso em como seria o seu beijo,
Escrevo o meu poema predileto,
E tudo isso aumenta meu desejo.

Duas almas diferentes se unem,
Pensamentos diversos se reúnem,
Pode haver dúvidas do que seria?

Aquilo que quase todos presumem:
A vontade de que em algum dia,
Sejamos tão-somente poesia.

Poema



Vivo uma vida medíocre.
Sem desejos nobres ou pensamentos brilhantes.
Tudo o que sinto, o mundo sente por mim.

Minha voz se cala diante da humanidade,
Não conheço nada de toda complexidade,
E nem ao menos sei o que devo saber.

Minha ínfima existência se perde
neste mundo que pede
cada vez mais sede.

Sede que não compreende
a água escassa
que logo escorre em nossas mãos.

Notas de um quase vencido



A dor que me consome some
O mundo que invejo vejo
O som de meu ouvido olvido
O cigarro que não trago trago
O espectro que assusta susta
Palavras que eu calo falo
Sentidos não comovem movem
Vírgulas não separam param.

Ecos perguntam porque não paro, parto.
Não paro pois meu parto é impossível.
Não parto pois o mundo não é meu, não posso partí-lo como me convém.
Não vim para partir, partir as contas de meus erros,
Errar no mundo sem ter, sem tido.

Continuo com frio
             com fio
             cansado
             calado
             com fome
             com sede
             com nada
             com medo
             comigo
             contigo
             contido.

sábado, 13 de novembro de 2010

Ser sem ciente




Eu,
Que tanto
Busco em vão
O não-ser. Sou
Cada dia mais
consciente de mim
mesmo. Tento entregar-me,
de olhos fechados, ao nada,
que sempre mais me parece um tudo,
que é e não é e nem se faz ser.
Agora percebo. Me diluo
no "me" inexistente, como
as sombras das borboletas
ao Sol. Flores sem cores
Porque não há luz
E nem eu para
vê-las. Quero
partir:
vôo.


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Pessoas paradas


De repente, olhando o blog de Douglas, me deu vontade de escrever novamente. Decidi, então, recuperar uns textos de um passado não tão distante. O texto de hoje, por exemplo, escrevi em 2004, ou seja, há apenas 6 anos. Mas como assim? Apenas 6 anos? É... pode parecer muito, mas o tempo é relativo e este texto, por estar ainda muito presente em minha memória, merece um certo destaque. Confesso que não é nenhuma obra-prima (aliás, está longe disso), mas o escrevi em um momento de muitos conflitos e, por isso, o guardo com bastante estima:

Droga, cadê meu ônibus que não chega? E essas pessoas? Que ônibus estão esperando? O que estão pensando? E essas que trabalham vendendo confeitos, churrasquinho...? Suas famílias, crianças mal-vestidas que apanham tudo do chão: como andam? A aparente felicidade delas é real? Como sorriem, riem, gastam seu dinheiro, as pessoas no bar improvisado... dormindo, com seu chapéu que o protege do Sol escaldante de cada dia, está o vendedor de confeitos que traz de longe seu carrinho, mas basta tocá-lo que ele está acordado para atender-te, assim como minha pena prestes à poesia. Nossa, como me parecem estranhas as pessoas... Mas eu também sou um estranho... Tão estranho quanto aquele velho de capacete de operário cuja única construção é a imaginação? Sim... Talvez mais estranho... Carros passam apressados querendo chegar em casa ou se divertir na noite... Infelizmente não percebem as pessoas, seus espíritos, muitos deles que choram a injustiça da realidade. Gente, pra que tanta pressa? Para chegar em casa cedo, ver suas famílias e começar um novo dia depois de amar seus amados... Ou simplesmente porque não gostam de trânsito e dele querem fugir, mesmo que arrisquem suas vidas: a única pertencente a cada um e a outros que deles tanto gostam ou odeiam. Ônibus com observadoras cabeças param para que haja mais cabeças nas janelas. Ali, as pessoas observadas passam a observar. O movimento relativo cria relações observadores-observados. Um olho pisca para o outro e o outro pisca para ele. Começa uma relação repentina extinta pela partida. Finalmente meu ônibus chegou, deixarei de ser observado, passarei a observar, deixarei de ser anônimo, chegarei em casa...